Vale de Jezreel

  

    A Sinagoga Kahal Zur Israel (Rochedo de Israel) Está localizada na atual Rua do Bom Jesus, chamada antigamente de Rua dos Judeus, no bairro do Recife, e foi, de 1638 a 1654 a primeira sinagoga oficial dos judeus que habitaram as Américas.


    A frente da sinagoga ficava na Rua dos Judeus e, anexas, funcionavam duas escolas religiosas (Talmud Torah e Etz Chayim). Após a expulsão dos holandeses, aquela rua passou a ser conhecida como Rua da Cruz, e os prédios do antigo templo e das escolas religiosas receberam o número 26. Somente a partir de 1879, a rua recebe o nome atual: Rua do Bom Jesus. Esse nome marcou o retorno do predomínio colonial português. 

  

    No início da colonização, sendo perseguidos pelos inquisidores em Portugal e Espanha, os judeus se refugiavam na América Lusitana, onde o fanatismo religioso era menor, tanto pelo relaxamento dos costumes, como pela necessidade de proteger a colonização. Apesar dessa liberalidade relativa, a Inquisição, jamais deixou vigiar a colônia hebraica brasileira, tendo enviado mais de 500 judeus condenados, a Portugal.


    Os judeus não convertidos ao catolicismo tinham os seus bens confiscados e/ou recebiam a condenação à morte na fogueira, por traição, heresia, bruxaria, ou por impureza de sangue. 

Muitos colonizadores portugueses que vieram para o Brasil no início do século XVI, eram, simplesmente, cristãos-novos ou marranos (judeus que eram convertidos à força ao catolicismo, mas que praticavam a religião judaica às escondidas), expulsos de Portugal.


 

Os trabalhos que os emigrantes judeus recém convertidos exerciam, eram bem variados: eles eram médicos, advogados, calígrafos, músicos, ourives, ceramistas, intérpretes oficiais, tradutores, donos de engenho, atores, carregadores de navios, compradores de negros escravos, comerciantes de tecidos, roupa, açúcar, alimentos, vinho, madeira, entre outros.

   O donatário Duarte Coelho, contratou judeus, para a montagem de engenhos de açúcar em Pernambuco, onde eles se dedicaram ao cultivo da cana-de-açúcar e à produção e exportação do açúcar. Logo, há que se admitir a influência judaico-marrana na formação histórica do povo brasileiro.


   Devido à tolerância religiosa dos holandeses, frente à prática da lei mosaica, uma parte seleta de judeus/europeus veio se estabelecer no Brasil. A Sinagoga Kahal Zur Israel, portanto, só floresceu durante o período do domínio holandes em Pernambuco: de 1630 a 1654. A formação inicial do templo contou com 180 membros, representados pelos pais das famílias judias residentes no Recife.

  

    Isaac Aboab da Fonseca, o primeiro rabino da comunidade, nasceu cristão-novo, em 1605, por força do batismo de seus pais. Para professar livremente a religião mosaica, a sua família emigrou para Amsterdã, onde Isaac se tornou rabino. Ele veio para o Recife em 1642, a convite da comunidade judaica pernambucana, ganhando um salário de 1.600 florins, acompanhado pelo chazan (cantor litúrgico da sinagoga) Moisés Rafael de Aguillar. Antes de 1636, a comunidade judaica utilizava a casa de David Sênior Coronel, na Rua dos Judeus, como sinagoga.


    Com a expulsão dos holandeses, as sinagogas foram fechadas e o seguimento das leis mosaicas foi proibido, terminantemente. Restou aos judeus, então, uma única alternativa para manter a identidade religiosa: a realização das suas cerimônias dentro das próprias casas. E, para garantir a segurança e a própria vida, a conversão ao catolicismo era a melhor saída.


    Em 1656, o prédio da sinagoga Kahal Zur Israel é doado a João Fernandes Vieira. Por sua vez, em 1679, ele e a esposa doam o imóvel aos padres da Congregação do Oratório de Santo Amaro. 

Na Rua do Bom Jesus, até bem recentemente, funcionava no referido prédio uma casa comercial de material elétrico. 

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    Apesar de a sinagoga Kahal Zur Israel ter ficado escondida sob muitos pisos durante séculos, as pesquisas do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, asseguraram a existência do templo. Estudos cartográficos e documentais, feitos pelo arquiteto José Luiz da Mota Menezes, apontaram o lugar exato para o início das escavações arqueológicas.


    Para localizar as dependências do primeiro templo judaico do hemisfério ocidental, foi preciso remover 750 toneladas de terra e mais de 1000 metros quadrados de reboco. Ao longo dos séculos, os alicerces do prédio haviam sofrido várias modificações, em decorrência dos vários aterros empreendidos para o assentamento da cidade do Recife. Através das escavações verificou-se a existência de 8 níveis distintos de piso, e as obras de restauração ficaram sob a responsabilidade do arquiteto José Luiz da Mota Menezes. 

  

    Somente em dezembro de 2001 a sinagoga pôde ser aberta ao público. Os móveis do templo, por sua vez, foram desenhados com base em pesquisas realizadas em algumas sinagogas holandesas do século XVII. 


    Durante as escavações, encontrou-se um precioso material arqueológico: muitos fragmentos de cachimbos holandeses, um pedaço de louça com a menorah, o candelabro judaico de sete pontas, louças de barro esmaltado trazidas pelos colonizadores portugueses.


    No piso térreo da sinagoga, as pessoas podem apreciar exposições permanentes sobre a cultura judaica e a história da comunidade hebréia em Pernambuco, conhecer como as escavações arqueológicas foram empreendidas, observar o piso original holandês, as várias camadas das paredes, e a muralha de contenção do rio Beberibe. É no térreo que se encontra, ainda, um dos alicerces mais relevantes do templo: o Mikveh.

  

    Tal buraco feito de pedras sobre pedras, sem a presença de argamassa, medindo 0,70 m de diâmetro por 1,70m de profundidade, representou a maior de todas as descobertas. Sem essa espécie de banheira, que foi alimentada, no século XVII, por um lençol freático de água límpida e fluente, os judeus não teriam a oportunidade de se purificar… O Mikveh foi examinado por um Conselho Rabínico, composto por rabinos do Brasil e da Argentina, e somente após uma rigorosa inspeção ficou comprovada a sua autenticidade, dentro das medidas especificadas nas escrituras sagradas.


    Para se ter idéia da importância do Mikveh, em uma comunidade judaica, basta dizer que as mulheres só podem ter relações sexuais após o término do período menstrual. Como o fluxo sangüíneo da menstruação é considerado como um elemento impuro, as judias, depois desse período, têm que passar por um determinado ritual de purificação. E este ocorre mediante um banho nesta piscina.

    No segundo piso - a sobreloja - encontra-se um salão de orações. Esse espaço ficou destinado à realização de conferências e seminários sobre a cultura judaica. A disposição, o formato e o material do teto da sinagoga foram frutos de pesquisas efetuadas junto a sinagogas portuguesas e espanholas do século XVII, e em residências holandesas em Pernambuco.


    Localizado no último piso do templo, o Centro de Documentação congrega as atividades culturais destinadas à preservação da memória judaica, em Pernambuco e no país.


    A arca que contém a Torah (Pentateuco) se encontra em frente ao púlpito e, este, em direção ao nascente. O mezanino é repartido em duas partes. Na primeira (supõe-se), está o lugar de onde as mulheres, sentadas em bancos, acompanhavam as cerimônias religiosas; e, na segunda parte, está presente o Centro de Documentação da Memória Judaica de Pernambuco.

Fontes:

  

KAHAL Zur Israel: Congregação Rochedo de Israel: resgate da memória da 1a. Sinagoga das Américas. Recife: Fundação Safra/Centro Cultural Judaico de Pernambuco, 2001.